Thursday, March 20, 2008

A ilusão da mentira

“Comigo ele nunca, mas nunca bebeu vinho!”

Entre lágrimas ela desabafava que tinha encontrado o ex-namorado, a jantar com a nova namorada, a beber vinho. Ali estava ela em frente a mim a chorar porque o homem com quem ela tinha estado durante tanto tempo, afinal não existia.

Com ela ele nunca tinha bebido vinho… e tantas vezes tinham jantado juntos. Em casa, no restaurante, com amigos, sozinhos, e nunca ele tinha bebido vinho com ela…

Porque será que em todas as histórias de ex-namorados, há sempre uma séria de surpresas…

Será que eles não foram sinceros na nossa antiga história ou será que não estão a ser sinceros é com a nova história?

Faz-me pensar numa conversa que ouvi entre a minha filha e um colega de escola, sobre fazer batota ou não fazer batota. Ela explicava que era uma escolha dele. Que a vida é cheia de escolhas e fazer batota ou não, também é uma escolha. Que quando escolhemos fazer batota não estamos a estamos a escolher a sinceridade. Ela optava pela “não batota” porque era a mais sincera e a que menos magoava. Porque, dizia ela:

“Não estás a ser sincero sobretudo contigo, e quando um dia escolheres a sinceridade vais ver como te vais sentir muito melhor”

Escolher a sinceridade é a opção que menos magoa… e não é que ela tinha razão? Se uma criança de 8 anos consegue ver isso como é que nós adultos não conseguimos?

O mais certo é que um dia a nova namorada o encontre a beber água e pergunte: “mas desde quando ele bebe água? …Comigo ele nunca bebeu água?...”

E lá vão 2 pela falta de sinceridade…

Quem sai aos seus...

A minha Princesa tem aquilo a que o Tio João, carinhosamente, chama de “sair á Tia Lai”, mas eu podia acrescentar de “sair á Tia Cinda, á Tia Nilde, á Tia Guida, ao Tio Quim-jó…”. Ela passa o tempo todo a corrigir. Corrige tudo e todos. Não importa a idade, local, estatuto… ela corrige…

Corrige o português dos Libaneses e Ingleses aqui do escritório… corrige a senhora da mercearia da rua nas contas, corrige a professora de inglês no sotaque do “R” (qualquer dia isso ainda sai caro), corrige os amigos do Porto no “máior”… ela corrige… ela corrige… e se pensavam que isto já era mal escutem isto:

- No fim-de-semana passado ela teve a companhia de um amigo (colega de escola) em casa e acreditem ou não, eu até fiquei com pena do amigo. Adivinhem o que fez ela todo o fim de semana? …
(Já adivinharam?)
Isso mesmo. Corrigiu o amigo durante TODO o fim-de-semana!

Eu, como sempre, mantenho aquela atitude de repórter da BBC Vida Selvagem. Assisto a tudo, filmo, mas não me meto, tal como eles explicam, “pode parecer cruel mas temos que deixar a natureza seguir o seu rumo”.
- “P…se já acabaste de jogar, arrumas os jogos…”
- “Olha!... ganda lata!”- discordava o P
-“Ah, pois, nesta casa é assim… todos participam na diversão e na arrumação… aqui todos ajudam e trabalham, vá…vá… toca a arrumar…”

O principal ponto de discórdia era mesmo á hora da refeição. Á mesa era quando a coisa ficava má…

-“P… não se mastiga com a boca aberta, ninguém precisa de ver o que estas a comer.”
- “Hum.. o que foi? O que estás a dizer?”-
Perguntou o P
- “P… não sabes?!?! Não se fala com a boca cheia.”
- “Então?! Mas foste tu quem me chamaste? Tinha que te responder ou não achas?”
- “Não, não precisavas de responder, não era para responderes, era para fechares a boca, mas se quisesses dizer alguma coisa, punhas a mão em frente e falavas. É assim que se faz.”

E continuava…

-“P… para comeres não precisas de sujar tudo á tua volta… olha lá à volta do teu lugar e à volta do meu? Vês a diferença?...”

E isto repetia-se todas as vezes que se comia … Até que á hora do jantar eu temi pela segurança dela, porque ao fim de quase 9h a ouvir “não se faz isto”, “não se faz aquilo”, “não se faz assim” eu, muito sinceramente, pensei que ele lhe fosse dar com o prato na cabeça.

Hora do jantar. Comia-se a sopa. Quando a Bobone lá do sitio diz:

- “P… o que é que estás a fazer?
Ele responde:
-“A comer sopa.”
-“Isso mesmo! Estás a comer sopa! Não estás a beber sopa! Por isso não devias estar a fazer esse barulho como se estivesses a beber a sopa da colher!”

E dando o exemplo, levou uma bela colherada de sopa à boca e disse:
-“Vês? Eu comi sopa…”

(Durante este tempo todo eu mantive os meus olhos no P, atenta a qualquer movimento deste, porque há momentos em que uma “cameramother” tem que agir… mas não foi necessário… P lá prosseguiu, impávido e sereno, no seu objectivo de terminar a sopa, fosse a comer ou a beber.)