Monday, November 20, 2006

Desenhos que carregamos na mochila

Num destes dias vi um desenho animado com a minha filha que considero um dos melhores desenhos animados que já vi. Não pelas imagens, porque disso não percebo nada mas com uma belíssima historia.
Era a história de um pequenino ser que nascia com umas asas, uma palete para pintar e um instrumento musical, mas todas as vezes que tentava usar uma destas “capacidades” com as quais tinha nascido usava mal, não conseguia voar, tentou desenhar uma flor mas saiu um desenho muito mau, e então ele nem ousou usar o instrumento musical, deitou-o fora porque já tinha visto que não tinha jeito para nada, por isso nem tentou para não fazer mais figuras tristes.
Isto porque das vezes em que ele tentou usar uma das suas capacidades e não conseguiu os outros seres da aldeia dele gozavam, criticavam as suas escolhas, diziam que ele não era capaz e para que ele sempre se pudesse recordar destes episódios faziam um desenho daquele momento triste da sua vida e colocavam-no na mochila que ele trazia as costas, ficando para ele cada vez mais difícil viver, porque a mochila era muito pesada e ele nem conseguia caminhar.
Ate que sobe a uma montanha muito alta, e lá encontra o criador da aldeia e dos seus habitantes que lhe explica que ele não é nenhum daqueles desenhos, aquilo são opiniões dos outros e faz para ele um desenho de como ele verdadeiramente é não como os outros o vêem, e que alem do mais, o facto de ele carregar aqueles desenhos faz com que a mochila fique muito pesada impedindo-o de voar e ate mesmo de andar, por isso ele já rebolava! Percebendo isso, ele repara que as suas asas ainda estão lá e que quando tentou voar a primeira vez as asas ainda eram muito pequeninas dai o fracasso, ele lança fora todos os desenhos e tenta voar e… consegue!
Eu fiquei a pensar que qualquer um de nos pode ser aquele ser. Cada um de nos tem determinadas capacidades mas porque simplesmente quando as tentamos usar as coisas não correram bem e alguém nos criticou e condenou por isso nos achamos que isso era mesmo para toda a vida e passamo-nos a ver não com os nossos olhos mas com os olhos dos outros. E o que vêem os outros? Pessoas incapazes. Incapazes de serem felizes, incapazes de terem boas notam, incapazes de serem bonitas, incapazes de terem opiniões próprias, incapazes de tomarem decisões, incapazes de trabalhar, incapazes de estudar, incapazes de serem boas mães ou bons pais, incapazes de serem bons maridos e mulheres, incapazes de serem bons filhos… pessoas incapazes. Opostos de Midas.
E desse modo vivemos uma vida como se vivêssemos 24h/dia dentro da casa de espelhos da feira popular. Mas na realidade nos não somos assim, são os espelhos (os olhos dos outros) que nos fazem crer que somos assim, deformados.
Experimentem sair de dentro dessa casa de espelhos, lembrem-se que os desenhos que os outros fizeram de vocês não determinam quem vocês são, nem sequer determinam a vossa capacidade para “voltarem a voar”. O vosso voo pode ter falhado por as vossas asas serem ainda pequenas. Pensem nisso.
Nos nascemos com determinadas capacidades, nos tivemos sonhos, e mesmo que tenhamos tentado voar 10 vezes e não conseguimos, que se lixe! Não vamos pensar que somos incapazes de voar. A única coisa errada foi termos guardados os desenhos que os outros fizeram sobre nós, falhar na tentativa de voar não nos deve impedir de perseguir esse sonho ou usar essa capacidade.
Vamos sacudir as nossas mochilas e vamos só guardar lá dentro a nossa palete de cores, para retratarmos o mundo e o nosso instrumento musical para fazermos da vida uma festa e ai então vamos conseguir voar, voar, muito alto e realizarmos os nossos sonhos.

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